Quando o Paddock Virou Data Center: A Corrida Bilionária das Big Techs pela Fórmula 1

Por que Oracle, HP, Google, Microsoft e Atlassian pagam centenas de milhões de dólares para estampar seus logos em carros de corrida? Uma investigação sobre a lógica por trás da invasão das big techs na Fórmula 1.

Um adesivo de US$ 500 milhões

Em 2022, a Oracle assinou um contrato com a Red Bull Racing avaliado em cerca de US$ 500 milhões ao longo de cinco anos — o equivalente a US$ 100 milhões por temporada só para colocar seu nome ao lado do de uma escuderia que fabrica carros de corrida. Para efeito de comparação, é praticamente o mesmo valor que a Oracle investiria para adquirir uma empresa de médio porte de software. A equipe passou a se chamar Oracle Red Bull Racing, e o dinheiro não comprou apenas um adesivo na lateral do carro: comprou acesso a uma sala com paredes de vidro dentro do paddock, onde engenheiros treinam pilotos juniores usando inteligência artificial e rodam simulações de estratégia de corrida em nuvem.

Esse não é um caso isolado. Hoje, três das principais escuderias do grid carregam o nome de uma empresa de tecnologia diretamente na denominação oficial da equipe: a Ferrari compete como Scuderia Ferrari HP, a Red Bull como Oracle Red Bull Racing, e a Williams recebeu naming rights da Atlassian, gigante australiana de software de colaboração corporativa. A Williams tem a Atlassian, a Ferrari tem a HP e a Red Bull tem a Oracle como patrocinadores principais, todas empresas de tecnologia ou software. Some a isso a McLaren, que a partir de 2026 divide seu nome com a Mastercard mas mantém o Google como parceiro tecnológico central, e a Mercedes, que embora tenha a Petronas como patrocinadora técnica principal, construiu em torno do time um ecossistema de tecnologia que inclui Microsoft, Qualcomm e Nasdaq.

Os números por trás da febre tecnológica

O tamanho desse movimento tem números que impressionam mais que qualquer volta rápida. Segundo levantamento da Ampere Analysis, o campeonato deve ultrapassar US$ 3 bilhões em patrocínios ao longo de 2026, impulsionado pela entrada de novas montadoras e pela presença crescente de empresas de tecnologia. Desse total, empresas ligadas a inteligência artificial — Groq, Meta AI e Claude — devem movimentar juntas mais de US$ 565 milhões em acordos comerciais ligados à categoria. A Fórmula 1 hoje soma 332 patrocinadores oficiais, e 21% desses patrocínios vêm do mercado de tecnologia, a maioria oriunda dos Estados Unidos.

O crescimento não é um pico isolado, é tendência sustentada. Os gastos com patrocínio na F1 devem crescer cerca de 15% ao ano — em 2025 o valor já havia alcançado aproximadamente US$ 2,5 bilhões, e boa parte dessa expansão tem assinatura de empresas de nuvem e software corporativo. Companhias como Hewlett Packard Enterprise e Oracle representam uma parcela significativa desse crescimento, respondendo por cerca de 24% da expansão do investimento tecnológico na categoria.

O carro que gera mais dados que uma partida de futebol

Para entender por que isso faz sentido — e não é apenas vaidade corporativa — é preciso olhar para dentro do carro, não para o logotipo nele pintado. Um monoposto de Fórmula 1 atual carrega cerca de 300 sensores espalhados pelo chassi, motor, suspensão e freios. Juntos, eles geram 1,1 milhão de pontos de dados por segundo, transmitidos em tempo real dos carros para os boxes. Uma comparação usada por executivos do setor ajuda a dimensionar isso: enquanto uma partida de futebol inteira gera cerca de 3,6 milhões de pontos de dados, a Fórmula 1 produz um volume equivalente em questão de segundos. Ao longo de um fim de semana de corrida, o total acumulado chega à casa dos bilhões de amostras.

Esse volume de dados não é decorativo. Ele é o motivo prático pelo qual uma empresa como a Oracle quer estar ali. O acordo renovado entre Oracle e Red Bull para o ciclo de 2026 amplia o uso da Oracle Cloud Infrastructure e da Oracle AI justamente para o desenvolvimento das novas unidades de potência híbridas da equipe, que estreiam sob o regulamento mais radical da F1 em décadas. O CEO da Oracle, Clay Magouyrk, resumiu a lógica comercial por trás do investimento: a mesma tecnologia usada para modelar estratégias de corrida e refinar a unidade de potência híbrida é vendida depois para empresas de outros setores como prova de conceito em condições extremas.

Foto: f1saopaulo.com.br

A pista como vitrine B2B

É esse o argumento central que sustenta a presença maciça de tecnologia no grid: a Fórmula 1 funciona como um laboratório de estresse público. Nenhuma empresa de software vende diretamente para o público que assiste à corrida no sofá — o comprador de Oracle Cloud, de soluções da HP para gestão de dados corporativos ou de infraestrutura de nuvem da Microsoft não é o torcedor de Interlagos, é o diretor de tecnologia de outra empresa, alguém que também assiste à corrida, mas do escritório. A pista vira vitrine B2B disfarçada de entretenimento de massa. A AWS, parceira da própria organização da F1 desde 2018, usa a categoria para demonstrar que sua infraestrutura viabiliza mais de cinco mil simulações aerodinâmicas antes de definir o desenho ideal de um carro — resultado que a empresa credita por ajudar a produzir monopostos 70% mais rápidos que gerações anteriores. A narrativa vendida não é “compre nosso produto”, é “veja do que ele é capaz sob a pior pressão possível”.

Ferrari e McLaren: dois modelos de negócio distintos

A Ferrari ilustra bem esse modelo em números concretos. A HP é a patrocinadora principal e dá nome oficial à equipe, que compete como Scuderia Ferrari HP, com o patrocínio envolvendo integração tecnológica em gestão de dados, digitalização de processos e infraestrutura computacional. O contrato, segundo levantamento do Poder360, rende à Ferrari entre 90 e 100 milhões de dólares por ano, o equivalente a cerca de R$ 489 milhões, tornando-o o acordo de patrocínio mais valioso do grid isoladamente — embora a Red Bull tenha reportado, segundo fontes não oficiais, receber cerca de US$ 110 milhões anuais da Oracle. No total, a Ferrari mantém 40 patrocinadores e parceiros técnicos em 2026, com estimativas de mercado indicando arrecadação entre 350 e 400 milhões de euros por temporada só com patrocínios.

A McLaren, por sua vez, escolheu diversificar em vez de concentrar. A equipe conta com 54 parceiros comerciais ativos, o maior portfólio de patrocínios da Fórmula 1, incluindo OKX, Mastercard, Google, British American Tobacco, DP World, Allwyn, Cisco e Dell. Zak Brown, CEO da equipe, chegou a declarar que a McLaren provavelmente gerou a maior receita comercial da história da categoria em 2025. O papel do Google ali não é cosmético: a parceria foca em conectividade, análise de dados em tempo real e soluções de inteligência artificial, e o piloto Oscar Piastri se tornou rosto de campanhas do Gemini, a IA da empresa.

O contraponto: propaganda cara com roupa de ciência?

Mas nem tudo nessa equação é consenso técnico disfarçado de patrocínio. Existe um argumento cético, e ele merece espaço: analistas de marketing esportivo apontam que boa parte desse investimento em tecnologia é, na prática, publicidade institucional tradicional vestida com roupa nova. O torcedor médio que vê o logo da Snapdragon no macacão de um piloto da Mercedes dificilmente vai comprar um processador Qualcomm por causa disso — ele nem sabe o que é um Snapdragon. A exposição de marca em um capacete a 300 km/h converte-se em reconhecimento de marca, não necessariamente em decisão de compra corporativa, que costuma passar por processos de licitação, comitês técnicos e ciclos de venda que duram meses. Nesse sentido, o “laboratório de estresse” seria menos ciência aplicada e mais storytelling caro — uma forma sofisticada de dizer “nossa marca está associada a velocidade e precisão”, sem que isso implique qualquer vantagem mensurável de engenharia.

Essa tensão aparece até dentro do próprio mercado de patrocínio, que passou a incluir também um fluxo de dinheiro claramente especulativo: a Ferrari fechou parceria com a BingX, corretora de criptomoedas, enquanto a McLaren mantém acordo com a OKX. Nenhuma das duas movimenta telemetria, sensor ou nuvem — movimenta apenas visibilidade e associação de marca com um universo de inovação e risco calculado, a mesma linguagem usada para vender contratos futuros de bitcoin.

O teste que os contratos passam sozinhos

Ainda assim, a diferença entre tecnologia real e tecnologia de fachada aparece quando se olha para o histórico de renovação dos contratos. A Oracle não apenas manteve, como ampliou seu acordo com a Red Bull para 2026, justamente no ano em que a F1 muda radicalmente as regras de motores híbridos — decisão que dificilmente seria tomada se o retorno fosse puramente estético. O mesmo vale para a Avanade, joint venture entre Microsoft e Accenture, que há mais de uma década processa a telemetria de equipes do grid, com cada carro gerando, já em versões mais antigas, algo como 15 megabytes de dados por volta apenas em corrida.

O que fica, ao final das contas, não é uma resposta fechada sobre quem tem razão — os que veem na Fórmula 1 um campo de testes genuíno para computação em nuvem e inteligência artificial, ou os que veem ali apenas outdoor ambulante a 350 quilômetros por hora. Talvez a pergunta mais interessante não seja se a tecnologia patrocina a Fórmula 1 ou se a Fórmula 1 vende tecnologia. É por quanto tempo mais o torcedor vai continuar sendo o público secundário do próprio esporte que assiste, enquanto o público que realmente importa para essas marcas assina contratos de nuvem no escritório, com a corrida ligada de fundo na outra tela.

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