RAMmageddon: memória mais cara pode elevar o preço dos PCs em até 20% em 2026

Alta recorde da DRAM e escassez de NAND pressionam PCs, notebooks e upgrades. Entenda a crise de memória provocada pela infraestrutura de IA.

A escalada dos preços de memória deixou de ser uma preocupação restrita a fabricantes de componentes. A chamada “RAMmageddon”, também descrita por alguns portais como “RAMpocalypse”, já alcança computadores completos, notebooks, servidores, smartphones e o mercado de montagem independente. Lenovo, Dell, HP, Acer e ASUS alertaram clientes sobre condições mais difíceis de fornecimento e possíveis reajustes entre 15% e 20% nos preços dos PCs em 2026.

O movimento acompanha uma alta sem precedentes nos contratos de memória. Em fevereiro, a TrendForce projetou que os preços da DRAM convencional subiriam entre 90% e 95% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o trimestre anterior. Em junho, com os resultados consolidados, a consultoria informou que o avanço ficou aproximadamente entre 93% e 98%. Para o segundo trimestre, a expectativa é de uma alta adicional entre 58% e 63%.

A NAND Flash, utilizada principalmente em SSDs e outros dispositivos de armazenamento, também enfrenta pressão severa. A previsão inicial da TrendForce apontava aumento de 55% a 60% no primeiro trimestre, enquanto a projeção para o segundo trimestre chegou a 70% a 75%. Portanto, não se trata apenas de RAM mais cara. Armazenamento e memória estão sendo pressionados simultaneamente, o que amplia o efeito sobre o custo final dos computadores.

crise de memória RAM em 2026
Crise de memória RAM em 2026 – Imagem criada pelo Copilot IA

Os números mostram uma crise de alocação, não apenas outro ciclo de preços

O mercado de memória sempre foi cíclico. Períodos de excesso de produção costumam provocar quedas de preço, seguidos por cortes de capacidade, redução dos estoques e uma nova fase de valorização. O comportamento observado em 2026, entretanto, acrescenta um componente diferente: a capacidade disponível está sendo direcionada deliberadamente aos produtos com maior retorno financeiro e maior demanda por parte dos data centers.

Na prática, fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron têm mais incentivos para priorizar HBM, DRAM de servidor de alta capacidade e produtos associados à infraestrutura de inteligência artificial. A TrendForce informou que o incremento de oferta durante o segundo trimestre permaneceu concentrado em módulos RDIMM de alta capacidade para servidores de IA, limitando a disponibilidade destinada a fabricantes de PCs e smartphones.

Essa distinção ajuda a interpretar corretamente os percentuais. Uma alta de 93% a 98% nos contratos de DRAM convencional não significa necessariamente que todo módulo de memória vendido no varejo dobrará de preço na mesma semana. Contratos negociados entre fabricantes, integradores e grandes compradores atravessam a cadeia em ritmos diferentes. Estoques antigos, acordos de longo prazo, câmbio, impostos e margens comerciais podem adiar ou ampliar o repasse.

O problema é que esses amortecedores têm duração limitada. Quando o estoque adquirido antes da alta termina, o lote seguinte já chega com outro custo. Em ambientes corporativos, essa transição costuma aparecer primeiro em cotações com validade reduzida, mudanças de configuração e dificuldade para manter o mesmo preço durante um projeto de aquisição. Depois, o impacto alcança licitações, contratos de renovação e compras unitárias.

A HBM ocupa mais capacidade e entrega margens superiores

A HBM, sigla para memória de alta largura de banda, é utilizada junto a aceleradores destinados ao treinamento e à execução de modelos de inteligência artificial. Diferentemente de um módulo DDR5 convencional, ela emprega múltiplas camadas de memória empilhadas e processos avançados de fabricação, interconexão e encapsulamento.

Produzir HBM exige mais recursos industriais por quantidade de memória entregue. Estimativas citadas pelo setor indicam que um bit de HBM pode consumir aproximadamente três vezes a capacidade de wafer necessária para produzir um bit de DDR5, além de enfrentar maior complexidade de encapsulamento e rendimento. Por isso, o crescimento da HBM retira capacidade que poderia ser utilizada em memórias convencionais mesmo quando os produtos não saem exatamente da mesma linha em todas as etapas.

Os data centers também não consomem somente HBM. Servidores de IA precisam de grandes volumes de DDR5 registrada, incluindo RDIMMs de alta capacidade, para alimentar processadores, armazenar dados temporários e sustentar cargas de inferência. A expansão da IA, portanto, pressiona tanto a memória especializada conectada aos aceleradores quanto a DRAM convencional instalada nos servidores.

Os grandes provedores de nuvem agravam a disputa ao negociar contratos de vários trimestres para assegurar fornecimento. Como esses compradores apresentam volume, previsibilidade e maior disposição para aceitar preços elevados, fabricantes de PCs, integradores menores e empresas que compram no mercado aberto ficam em posição menos favorável.

NAND e SSDs transformam a pressão sobre memória em aumento do computador inteiro

A escassez não está confinada aos módulos DDR5. A fabricação de NAND também está sendo ajustada para atender SSDs empresariais destinados aos data centers. Segundo a TrendForce, a procura por armazenamento corporativo permaneceu elevada, enquanto fornecedores restringiram a entrega de NAND para SSDs de computadores pessoais.

Isso cria uma combinação difícil para os fabricantes de PCs. Um notebook precisa, no mínimo, de processador, placa principal, memória e armazenamento para formar sua configuração comercial. Quando DRAM e NAND sobem ao mesmo tempo, reduzir a margem pode não ser suficiente para preservar o preço.

As marcas podem reagir de quatro maneiras: reajustar o produto, reduzir a quantidade de RAM, diminuir a capacidade do SSD ou manter as especificações e reposicionar o equipamento em uma faixa superior. O efeito mais discreto costuma ser a deterioração da configuração. Um modelo que deveria passar de 16 GB para 32 GB pode permanecer com 16 GB; outro que receberia SSD de 1 TB pode continuar limitado a 512 GB.

Essa redução merece atenção porque computadores vendidos como “AI PCs” dependem de memória suficiente para a execução local de modelos e para o compartilhamento com a GPU integrada. A falta de RAM não elimina apenas uma especificação de marketing. Ela reduz a capacidade de multitarefa, aumenta a paginação no SSD e pode limitar aplicações locais de inteligência artificial.

Grandes fabricantes conseguem proteção que o mercado independente não possui

A confirmação de possíveis aumentos entre 15% e 20% para Lenovo, Dell, HP, Acer e ASUS não significa que todos os modelos receberão o mesmo reajuste. Empresas desse porte mantêm contratos de fornecimento, estoques estratégicos e maior poder de negociação. Essas proteções permitem distribuir a elevação de custos entre linhas, regiões e períodos diferentes.

O mercado de montagem independente enfrenta uma situação menos confortável. Integradores locais, lojas especializadas e consumidores que compram componentes separadamente dependem mais do preço à vista, da disponibilidade dos distribuidores e dos lotes existentes. A IDC apontou que fornecedores menores e o segmento DIY tendem a carregar a maior parte do impacto, enquanto grandes OEMs podem aproveitar a crise para tornar computadores prontos relativamente mais competitivos.

Isso produz um resultado incomum. Montar um PC nem sempre será a alternativa de melhor custo durante a escassez. Uma fabricante que comprou memória antecipadamente pode vender um desktop completo por um valor proporcionalmente menor do que o custo de CPU, placa-mãe, RAM e SSD adquiridos separadamente no varejo.

A análise precisa considerar também a capacidade de expansão. Notebooks com memória soldada ou poucos slots podem parecer mais baratos, mas transferem o custo para o futuro. Em um período de componentes valorizados, comprar uma configuração insuficiente e substituí-la antes do previsto pode sair mais caro do que dimensionar corretamente o equipamento desde o início.

A crise de 2026 difere da escassez provocada pela pandemia

Entre 2020 e 2022, os problemas de hardware estavam associados a paralisações de fábricas, congestionamentos logísticos, falta de substratos, aumento repentino da procura por eletrônicos e dificuldades de transporte. A capacidade industrial existia, mas não conseguia operar ou circular normalmente em diversos pontos da cadeia.

Em 2026, o desequilíbrio decorre principalmente da destinação econômica da capacidade. Os fabricantes continuam produzindo, mas priorizam HBM, memória de servidor e produtos de maior margem. A escassez é estrutural porque não depende apenas da normalização de portos ou da recomposição dos estoques. Ela exige expansão física, melhoria de rendimento e aumento efetivo da produção.

Novas fábricas não entram em operação imediatamente. Construção de salas limpas, instalação de equipamentos, qualificação dos processos e elevação gradual do volume podem levar anos. As projeções atuais indicam que uma expansão relevante de capacidade dificilmente chegará antes do fim de 2027, com parte da normalização possivelmente avançando por 2028.

Essa perspectiva não transforma toda previsão em certeza. Uma desaceleração dos investimentos em data centers, melhora no rendimento das fábricas ou queda acentuada da procura por PCs pode reduzir a pressão. O ponto tecnicamente mais defensável é que não existe, por enquanto, um mecanismo rápido capaz de devolver ao mercado consumidor toda a oferta desviada para servidores.

Comprar imediatamente nem sempre é necessário, mas esperar pela queda pode custar caro

Para consumidores que já possuem um computador adequado, a alta da memória não justifica uma compra por impulso. Um equipamento com desempenho suficiente pode atravessar o período com manutenção preventiva, limpeza, atualização de software e substituição apenas do componente que apresenta limitação real.

A decisão muda quando a compra já está planejada, o computador atual impede o trabalho ou existe uma renovação corporativa prevista para os próximos meses. Nesses casos, esperar por uma queda expressiva em 2026 representa uma aposta contra os sinais disponíveis no mercado.

Empresas devem revisar propostas com validade longa, separar equipamentos críticos dos que podem ter a vida útil ampliada e evitar padronizações que dependam de uma única configuração. Também convém analisar a possibilidade de acrescentar memória no momento da aquisição. A expansão posterior pode sofrer com preços mais altos, falta de módulos compatíveis ou restrições de garantia.

Para montagem doméstica, a comparação precisa incluir computadores prontos. O histórico de mercado favorece o projeto personalizado, mas uma crise de alocação pode inverter essa relação temporariamente. O menor valor de uma peça isolada não garante o menor custo do conjunto.

A RAMmageddon não significa que todos os computadores ficarão imediatamente 20% mais caros. Significa que a base de custo aumentou, os fabricantes perderam parte da previsibilidade e os produtos de entrada estão mais expostos a cortes de especificação. O comprador deve observar não apenas a etiqueta, mas quanta RAM e quanto armazenamento receberá pelo mesmo dinheiro.

Dúvidas sobre preços de RAM, SSDs e computadores em 2026

Por que a memória RAM ficou tão cara em 2026?

A principal causa é a combinação de forte demanda dos data centers com a priorização de HBM, DRAM de servidor e módulos de alta capacidade. Esses produtos geram margens maiores e consomem capacidade industrial que poderia atender memórias convencionais para PCs e dispositivos móveis.

Os preços dos PCs realmente podem subir 20%?

Sim, mas o percentual não será uniforme. Lenovo, Dell, HP, Acer e ASUS sinalizaram reajustes entre 15% e 20% como resposta à elevação dos custos de DRAM e NAND. Cada marca pode distribuir os aumentos entre linhas, mercados e configurações diferentes.

Os SSDs também serão afetados?

Sim. A NAND Flash utilizada nos SSDs enfrenta oferta restrita e maior demanda do segmento empresarial. A projeção para o segundo trimestre de 2026 chegou a uma alta contratual de 70% a 75%, superior à faixa prevista para a DRAM convencional no mesmo período.

É melhor comprar memória agora ou esperar?

Depende da necessidade. Quem já precisa ampliar um computador limitado ou possui uma aquisição aprovada pode reduzir o risco comprando antes de novos repasses. Quem não apresenta limitação prática não deve adquirir componentes apenas por medo, pois previsões de mercado podem mudar.

Quando a oferta deve voltar ao normal?

Não há uma data garantida. As estimativas apontam escassez durante 2026 e pelo menos parte de 2027. Uma expansão relevante da capacidade pode aparecer somente no fim de 2027 ou em 2028, devido ao tempo necessário para construir, equipar e qualificar novas fábricas.

Veja Também: