Em 2025, sistemas conectados no território brasileiro receberam em média 1.379 tentativas de ataque por minuto — mais de duas por segundo — totalizando 753,8 bilhões de tentativas registradas pelo FortiGuard Labs, laboratório da Fortinet. O volume representa quase um quinto de todas as ameaças detectadas na América Latina, colocando o país como o segundo mais visado do mundo em incidência de malware, atrás apenas da Índia, conforme relatório Acronis Cyberthreats Report H1 2025. O dado contraria a ideia comum de que grandes potências econômicas concentram necessariamente os maiores volumes de ataque: países como Estados Unidos e China aparecem em posições inferiores nessa classificação, apesar de alvos de operações mais específicas e sofisticadas.

O alvo financeiro mais acessível da região
Esse cenário não se resume a um único fator, mas à combinação de características que tornam o Brasil um alvo com retorno rápido, baixo risco e ampla superfície de exploração para grupos criminosos e atores estatais. A primeira delas é a própria estrutura econômica e digital do país. Maior economia da América Latina, com PIB superior a R$ 9 trilhões em 2025, o Brasil registrou mais de 18 bilhões de transações digitais no mesmo ano, segundo dados da Febraban levantados pela Deloitte — volume que corresponde a 72% de todas as operações financeiras realizadas no território. O Pix, ferramenta que processa mais de 150 milhões de transferências por dia, e o ecossistema de fintechs, com mais de 1,6 mil empresas ativas, formam um ambiente onde valores significativos circulam em tempo real, sem barreiras físicas ou checagens presenciais obrigatórias. Para grupos que operam com modelos de ataque oportunista, como ransomware e fraudes financeiras, o Brasil oferece uma densidade de alvos que não encontra paralelo na região: o custo médio de resgate pago por empresas brasileiras chegou a R$ 4,2 milhões em 2025, segundo pesquisa da Cohesity, e 84% das organizações que sofreram sequestro de dados já efetuaram pagamento em algum momento de sua trajetória.
A digitalização sem contraponto de segurança
A digitalização acelerada, por sua vez, foi implementada sem o mesmo ritmo de investimento em segurança. Dados do relatório Cost of a Data Breach 2025, elaborado pela IBM em parceria com o Ponemon Institute, mostram que o custo médio de um vazamento no Brasil chegou a R$ 7,19 milhões — alta de 6,5% em relação a 2024 —, enquanto o orçamento médio destinado a cibersegurança corresponde a apenas 3,2% do faturamento das empresas locais, contra 5,8% na União Europeia e 6,1% nos Estados Unidos. Pequenas e médias empresas, que representam 99% dos estabelecimentos e geram 54% dos empregos formais no país, são as mais vulneráveis: 60% delas não possuem equipe dedicada ou plano de resposta a incidentes, conforme levantamento do Sebrae de 2025. Muitas adotam soluções de nuvem e sistemas de gestão sem avaliar vulnerabilidades ou exigir o mesmo padrão de proteção de fornecedores, criando brechas que se tornam pontos de entrada para ataques em cadeia — como ocorreu em 2025, quando um provedor de tecnologia da saúde foi invadido, expondo dados de 500 mil pacientes atendidos em unidades de seis estados diferentes.
A manipulação como caminho mais curto
A forma como a sociedade e as organizações lidam com informações também funciona como um fator de atração. O Brasil registra uma das maiores taxas de sucesso em campanhas de engenharia social do mundo: 49% de todos os incidentes notificados ao Centro de Tratamento e Resposta a Incidentes de Segurança da Informação do Governo Federal (CTIR Gov) em 2026 tiveram origem em manipulação de usuários, seja por mensagens falsas, pedidos de transferência urgente ou perfis falsos em redes sociais. Pesquisa da Verizon no Data Breach Investigations Report 2025 aponta que colaboradores brasileiros clicam em links maliciosos em 38% dos casos, índice 12 pontos percentuais acima da média global. A prática de negociar credenciais corporativas também é comum: no LinkedIn, anúncios oferecem entre R$ 10 mil e R$ 20 mil por acesso a sistemas de gestão ou contas de diretores financeiros, segundo observações da equipe de inteligência da Fortinet Brasil.
Além do lucro: infraestrutura crítica como alvo estratégico
Atrativos não são apenas financeiros. O Brasil concentra infraestruturas críticas que interessam tanto a grupos criminosos quanto a atores com vínculos estatais. O setor financeiro foi o mais atingido em 2025, com 76 incidentes graves registrados pelo Banco Central — aumento de 29% em relação a 2024 —, seguido por saúde, telecomunicações e órgãos governamentais. Em abril de 2025, um ataque de ransomware paralisou por dez dias as atividades do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), interrompendo a produção de radiofármacos essenciais ao tratamento de câncer em todo o país e causando prejuízo inicial de R$ 2,5 milhões. Relatórios do Google Cloud identificam que grupos associados à Coreia do Norte, China e Rússia mantêm operações contínuas no território desde 2018, visando desde projetos de defesa até acordos comerciais e investimentos internacionais.
A visão que contraria a narrativa de fragilidade
Há, porém, quem questione a ideia de que o Brasil seja alvo prioritário por fragilidade. Alexandre Bonatti, vice-presidente de Engenharia da Fortinet Brasil, argumenta que a classificação reflete mais a capacidade de detecção do que a real vulnerabilidade: “Países com estrutura de segurança menos desenvolvida simplesmente não registram o volume de ataques que recebem. O Brasil aparece em destaque porque consegue identificar e notificar mais do que a maioria dos vizinhos latino-americanos”. Dados do CERT.br, do NIC.br, reforçam essa perspectiva: em 2025, foram notificados 12,4 milhões de incidentes, enquanto a Argentina, segunda colocada na região, registrou 2,1 milhões — diferença que não corresponde a uma proporção de população ou tamanho da economia. Outro contraponto vem de estudos da consultoria Gartner, que mostram que a maturidade em segurança no Brasil cresceu 18% entre 2022 e 2025, superando índices da Colômbia e do Chile, mesmo com o aumento de ameaças.
Regras que ainda não mudaram o jogo
A regulamentação, embora avance, ainda demora a produzir efeitos práticos. A Lei Geral de Cibersegurança, aprovada em 2024, estabelece requisitos mínimos para infraestruturas críticas, mas até meados de 2026 ainda não havia regulamentação completa para todos os setores, e apenas 12% das empresas de pequeno e médio porte haviam se adaptado às novas regras. A LGPD, por sua vez, obriga a notificação de incidentes em até três dias úteis, mas a ANPD aplicou apenas R$ 18 milhões em multas em 2025 — valor considerado insuficiente para gerar dissuasão, segundo especialistas ouvidos pela revista Convergência Digital.
O cibercrime que se estruturou dentro da região
O cenário também se transforma com a profissionalização do cibercrime na região. Diferente de grupos isolados de hackers, hoje operam redes estruturadas que dividem funções: quem cria ferramentas, quem executa ataques, quem negocia resgates e quem lava recursos. O Brasil funciona como um centro de distribuição para essas operações, com fóruns e mercados onde se alugam acesso a redes de infectados, compram-se dados de cartões de crédito e contratam-se especialistas em exploração de vulnerabilidades. A moeda preferencial continua sendo criptomoedas, com liquidez e acesso facilitado no mercado local, que registrou crescimento de 41% em transações desse tipo entre 2024 e 2025, segundo dados do Banco Central.
À medida que novas tecnologias se disseminam — dispositivos conectados em cidades inteligentes, sistemas de logística automatizados e serviços públicos digitais — a superfície de ataque só tende a crescer. O que não está claro é se a capacidade de defesa vai acompanhar esse ritmo, ou se o país continuará sendo escolhido não por ser o mais fraco, mas por ser o mais atraente entre os que ainda não conseguiram fechar todas as portas.