Às 18h47, em um escritório de Curitiba, um analista de suporte enviava a última mensagem do dia para a equipe: “Todos os chamados foram resolvidos”. Nos registros internos da empresa, o sistema apontava que ele havia concluído 42 solicitações em oito horas de trabalho — uma marca 37% superior à média da equipe. Mas, ao analisar o histórico de digitação e navegação, a equipe de dados descobriu algo diferente: apenas 12% do texto enviado e das ações executadas correspondiam a comandos redigidos manualmente. O restante vinha gerado, organizado e formatado por ferramentas que ele passou a usar há seis meses, recomendadas em um curso de produtividade corporativa. O que parecia um ganho de eficiência começou a se transformar, com o tempo, em uma sensação nova: um cansaço que não vinha da repetição de tarefas, nem do esforço intelectual tradicional, mas de uma desconexão crescente entre o que ele produzia e o que ele realmente entendia.
Esse fenômeno, que pesquisadores começaram a chamar de cansaço sintético, não é apenas uma sensação subjetiva. Um estudo publicado em 2025 na revista Computers in Human Behavior, conduzido por uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais em parceria com a Universidade de Zurique, acompanhou 2.147 trabalhadores de diferentes setores no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos durante 14 meses. Os resultados mostram que profissionais que usam ferramentas de apoio à produção em mais de 60% do seu tempo diário relatam níveis de exaustão mental 41% mais altos do que aqueles que as utilizam em menos de 20% da jornada. O dado contraria a expectativa inicial de que a automação reduziria o desgaste: segundo a pesquisa, a diminuição do esforço físico ou operacional não elimina o gasto cognitivo — ele apenas muda de forma.
O mecanismo que explica essa mudança foi detalhado em um relatório da McKinsey Global Institute, lançado no final de 2024. Quando uma tarefa é feita integralmente por uma pessoa, o cérebro estabelece uma ligação direta entre a percepção do problema, o raciocínio para resolvê-lo e o resultado final. Há um ciclo de retroalimentação natural que confere sentido ao trabalho. Quando parte significativa desse processo é intermediada por sistemas que geram respostas, estruturam informações ou tomam decisões parciais, a atividade passa a exigir um esforço diferente: o de verificar, adaptar, interpretar e justificar algo que não foi construído a partir do próprio entendimento. A carga de trabalho não desaparece — ela se desloca da criação para a supervisão e da compreensão para a validação.
Dados da Gartner, referentes ao primeiro semestre de 2026, reforçam a velocidade com que esse cenário se expande no Brasil. Cerca de 68% das empresas com mais de 100 funcionários já adotaram ou planejam adotar ferramentas de suporte à produção de conteúdo, análise de dados e gestão de processos até o final do ano passado. Em setores como tecnologia, finanças e serviços jurídicos, esse índice chega a 83%. A consultoria estima que, em média, cada ferramenta implementada reduz o tempo gasto por tarefa em até 29% nos primeiros três meses — mas, a partir do sexto mês, os ganhos de produtividade se estabilizam e começam a aparecer indicadores de queda na qualidade da solução de problemas complexos.
Há um exemplo prático na área de desenvolvimento de software. A empresa brasileira de soluções digitais TOTVS relatou em seu relatório de gestão de 2025 que, após disponibilizar sistemas de apoio à codificação para 1.200 programadores, o número de linhas de código entregues por dia aumentou em 32% no primeiro semestre. Porém, ao longo do segundo semestre, a taxa de retrabalho e a quantidade de erros que só apareciam em fases avançadas do projeto subiu em 27%. O coordenador de engenharia da empresa observou que muitos profissionais passaram a aceitar sugestões dos sistemas sem analisar completamente a lógica por trás delas, o que gerou uma sensação de insegurança e fadiga constante: “Eles não sabem se o que entregam é realmente correto, mas não têm tempo para refazer tudo do zero”.
Esse quadro, porém, não é unanimidade entre especialistas. Um estudo realizado pela OCDE em 2025, com base em dados de 35 países, aponta uma relação inversa em grupos de trabalhadores que recebem formação contínua para usar essas ferramentas de forma estratégica. Nos casos em que o uso é orientado para ampliar a capacidade de análise e não apenas para substituir etapas do trabalho, os índices de exaustão mental ficam em 18% abaixo da média e a satisfação profissional aumenta em 26%. Para os autores do relatório, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é integrada à rotina: quando usada como um apoio para aprofundar o conhecimento, reduz a carga; quando usada para cumprir metas quantitativas, cria uma pressão nova e mais difícil de medir.
A pesquisa da OCDE traz outro dado relevante: no Brasil, apenas 19% das empresas oferecem treinamento estruturado para o uso dessas ferramentas, enquanto na média dos países da União Europeia esse número chega a 52%. A diferença ajuda a explicar por que o cansaço sintético se manifesta com mais intensidade no mercado nacional. Sem orientação, muitos profissionais adotam as soluções de forma mecânica, buscando apenas cumprir prazos e metas, sem compreender seus limites ou como ajustá-las ao seu modo de trabalhar.
Os efeitos a longo prazo começam a ser estudados. Um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2026, com dados de afastamentos e registros de saúde ocupacional, mostra que o número de solicitações de licença por distúrbios relacionados à fadiga mental e dificuldades de concentração aumentou em 34% entre 2022 e 2025, especialmente em funções que dependem cada vez mais de sistemas automatizados. Não há uma relação direta e comprovada ainda, mas os pesquisadores apontam uma correlação consistente com o crescimento da adoção de ferramentas de apoio à produção.
Há também uma dimensão subjetiva, que aparece em relatos de trabalhadores que não constam nas estatísticas oficiais. Um contador de uma empresa de auditoria em São Paulo, que prefere não ser identificado, conta que antes passava horas analisando balanços e comparando dados, mas sentia que dominava cada número. Hoje, os sistemas geram relatórios completos em minutos, e sua função é apenas revisar e assinar. “Muitas vezes, não entendo bem como o cálculo foi feito, e não tenho tempo de refazê-lo. Fico com a sensação de que estou apenas carimbando papéis, e que, se o sistema errar, a responsabilidade é minha, mas o controle não está mais nas minhas mãos”, diz. Essa perda de domínio sobre o próprio trabalho é apontada por especialistas como um dos principais componentes do cansaço sintético: a sensação de esforço sem controle, de execução sem compreensão.
As empresas começam a reagir, mas sem uma direção única. Algumas adotam limites ao uso das ferramentas, definindo horários ou tarefas em que elas não podem ser empregadas, para manter a prática do raciocínio completo. Outras investem em redefinir metas, deixando de lado a contagem de volume de produção e passando a avaliar a qualidade da solução, a capacidade de inovar e a resolução de problemas complexos. Em um caso registrado na consultoria Accenture, a mudança de critérios de avaliação reduziu em 22% os índices de esgotamento em um grupo de 850 analistas, sem queda significativa nos resultados operacionais.
Por outro lado, há quem defenda que o cansaço sintético é apenas uma fase de adaptação. O pesquisador americano Erik Brynjolfsson, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em artigo publicado em 2025 na Harvard Business Review, argumenta que novas formas de trabalho sempre geraram desconforto e sensação de descontrole. A transição da produção artesanal para a fabricação em série, no final do século XIX, também provocou relatos de fadiga mental e perda de sentido. Com o tempo, surgiram novas regras, novas competências e uma nova relação com o trabalho. Para ele, o desafio atual não é rejeitar as ferramentas, mas redefinir o que significa ser produtivo.
A contradição entre esses dois pontos de vista coloca uma questão central para o futuro do trabalho. Se a tecnologia continua a ganhar capacidade de gerar, organizar e decidir informações, o que resta ao ser humano? A resposta não é óbvia. O cansaço sintético surge como um sinal: o corpo e a mente alertam que o esforço não está alinhado com a compreensão e o propósito. Mas, ao mesmo tempo, os dados mostram que, quando a formação e a organização do trabalho acompanham a evolução das ferramentas, o desgaste diminui e novas possibilidades aparecem.
Às 19h12, o analista de Curitiba fecha o computador e olha para a tela final: a marca de produtividade continua alta, mas ele sente que não conseguiu realmente resolver nada. A sensação de ter trabalhado muito sem ter aprofundado nada permanece. Não há ainda uma fórmula pronta para equilibrar ganhos de agilidade e preservação da capacidade intelectual. O que se sabe é que o caminho não passa apenas por mais tecnologia, nem por menos — mas por uma escolha que ainda estamos aprendendo a fazer: como manter o trabalho como espaço de construção, mesmo quando grande parte da execução deixa de ser feita por nós mesmos. E, enquanto essa resposta não vem, resta observar: até que ponto o que ganhamos em velocidade não estamos perdendo em capacidade de entender o que realmente fazemos?